sábado, 21 de outubro de 2017

Morte do justo


Pretiosa in conspectu Domini mors sanctorum ejus. – “É preciosa na presença de Deus a morte de seus Santos” (Sl 115, 15)

PONTO I

Considerada a morte à luz deste mundo, nos espanta e inspira temor; mas, segundo a luz da fé, é desejável e consoladora. Parece terrível aos pecadores; mas aos olhos dos justos se apresenta amável e preciosa.
“Preciosa, — disse São Bernardo — porque é o termo dos trabalhos, a coroa da vitória, a porta da vida”.
E, na verdade, a morte é termo de penas e trabalhos. O homem nascido de mulher vive curto tempo e está sujeito a muitas misérias (Jó 14,1). Eis aí o que é a nossa vida, curta e cheia de misérias, enfermidades, inquietações e sofrimentos.
Os mundanos, desejosos de longa vida — diz Sêneca — que procuram senão mais prolongado tormento? (Ep 101). Que é continuar a viver — exclama Santo Agostinho — senão continuar a sofrer? A vida presente — disse Santo Ambrósio — não nos foi dada para repousar, mas para trabalhar, e, por meio destes trabalhos, merecer a vida eterna (Serm. 45). Com razão, afirma Tertuliano que Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio — mais parece alívio o morrer do que castigo.
Deus chama bem-aventurados aos que morrem na sua graça, porque acabam os trabalhos e começam a descansar.
“Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor. Desde hoje — disse o Espírito Santo — que descansem de seus trabalhos” (Ap 14,13).
Os tormentos que afligem os pecadores na hora da morte não afligem os Santos.
“As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e não os atingirá o tormento da morte” (Sb 3,1)
Não temem os Santos aquela ordem de sair desta vida, que tanto amedronta aos mundanos, nem se afligem por terem de deixar os bens da terra, porque nunca apegaram a eles o seu coração.
“Deus do meu coração — repetiram sempre; Deus meu por toda a eternidade” (Sl 72,26).
Sois felizes, — escrevia o Apóstolo a seus discípulos, que tinham sido despojados de seus bens por terem confessado a Cristo. — Suportastes essa perda com alegria, sabendo que vos esperava patrimônio mais excelente e duradouro (Hb 10,34). Não se afligem os Santos por terem de deixar honras mundanas, pois sempre as desprezaram e as tiveram na conta do que são efetivamente: fumo e vaidade, e somente estimaram a honra de amar a Deus e de ser por Ele amados. Não se afligem por terem de deixar seus parentes, porque somente os amaram em Deus, e, ao morrer, os deixam recomendados àquele Pai celestial que os ama mais do que eles; e esperando salvar-se, creem que melhor lhes poderão ajudar lá no céu do que ficando na terra. Em suma: todos aqueles que disseram sempre durante a vida Meu Deus e meu tudo, repetem-no ainda com maior consolo e ternura no momento da morte.
Quem morre no amor de Deus, não se inquieta com as dores que acompanham a morte, antes se compraz nelas, considerando que a vida vai-se acabar e que já não terá mais a sofrer por Deus nem a testemunhar-lhe novas provas de amor. Assim, com afeto e paz, lhe oferece os últimos restos da sua vida e consola-se, unindo o sacrifício de sua morte ao sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós na cruz a seu eterno Pai. Desta maneira morre satisfeito, dizendo:
“Em seu seio dormirei e descansarei em paz” (Sl 4,8).
Que felicidade morrer entregando- se nos braços de Cristo, que nos amou até à morte, e que quis sofrer morte tão cruel para alcançar-nos morte doce e consoladora!

AFETOS E SÚPLICAS

Ó amado Jesus, que para dar-me morte feliz quisestes sofrer morte crudelíssima no Calvário!
Quando vos tornarei a ver?… A primeira vez que vos verei será quando me julgardes, no momento de expiar. Que vos direi então?… E vós, que me direis?… Não quero esperar até que chegue este instante para pensar nisso; quero meditá-lo desde já.
Dir-vos-ei: “Senhor: vós, amado Redentor meu, morrestes por mim…
Houve tempo em que vos ofendi, e fui ingrato para convosco e não merecia perdão. Mas, ajudado por vossa graça, procurei emendar-me, e no resto de minha vida chorei meus pecados, e vós me perdoastes.
Perdoai-me de novo agora que estou a vossos pés e outorgai-me vós mesmo a absolvição geral de minhas culpas. Não merecia mais amar-vos, por ter desprezado vosso amor. Mas vós, Senhor, por vossa misericórdia atraístes meu coração, que, se não vos tem amado como mereceis, amou-vos sobre todas as coisas, deixando tudo para vos agradar… Que me direis agora?… Verdade é que a glória de vos contemplar no vosso reino é altíssima distinção de que não sou digno; mas não poderei viver afastado de vós, especialmente agora que me mostrastes a vossa excelsa formosura. Peço-vos, pois, o paraíso, não para poder gozar mais, mas para melhor vos amar. Nem quero tampouco entrar nessa pátria de santidade e ver-me entre aquelas almas puras, manchado como estou agora por minhas culpas. Mandai que antes me purifique, mas não me expulseis para sempre de vossa presença… Basta que algum dia, quando vos aprouver, me chameis ao paraíso para que ali cante eternamente as vossas misericórdias. Por agora, meu amado Jesus, dai-me vossa bênção e garanti-me que sou vosso, que sereis sempre meu, que
vos amarei e me amareis para sempre… Aparto-me agora de vós, Senhor, para ir às chamas purificadoras; mas vou contente, porque ali hei de amar-vos, Redentor meu, meu Deus e meu tudo…

Vou contente, sim, mas sabei que, enquanto estiver longe de vós, essa separação temporal será minha maior pena. Contarei, Senhor, os instantes até que me chameis… Tende compaixão de uma alma que vos ama com todas as suas forças, e que suspira por ver-vos para melhor vos amar”. Assim, meu Jesus, espero então falar-vos. Até lá, vos peço a graça de viver de modo que possa dizer-vos então o que agora acabo de pensar. Concedei-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor… e ajudai-me.
Ó Maria, mãe de Deus, rogai a Jesus por mim!

PONTO II

Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte (Ap 21,4). Na hora da morte, o Senhor limpará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio dos trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma amante de seu Deus, quando sente a proximidade da morte, será pensar que em breve estará livre de tanto perigo de ofender a Deus, como há no mundo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é uma guerra contínua contra o inferno, na qual sempre corremos o risco de perder a Deus e a nossa alma.
Disse Santo Ambrósio que neste mundo caminhamos constantemente entre redutos do inimigo, que estende laços à vida da graça.
Este perigo fez exclamar a São Pedro de Alcântara, quando se achava agonizando:
“Retirai-vos, meu irmão, — dirigindo-se a um religioso que, ao prestar-lhe serviço, o tocava com veneração — retirai-vos, pois vivo ainda e por consequência estou em perigo de me perder”
Por este mesmo motivo se regozijava Santa Teresa cada vez que ouvia soar a hora do relógio; alegrava-se por ter passado mais uma hora de combate, dizendo:
“Posso pecar e perder a Deus em cada instante de minha vida”.
É por isto que todos os Santos sentiam consolo ao saberem que iam morrer: pensavam que em breve se acabariam os combates e os perigos e teriam assegurada a inefável dita de jamais poder perder a Deus. Lê-se, na vida dos Padres, que um deles, de idade avançada, na hora da morte, ria-se enquanto seus companheiros choravam. E como lhe perguntassem o motivo de seu contentamento, respondeu:
“E por que é que chorais, sendo que vou descansar de meus trabalhos?”.
Também Santa Catarina de Sena disse ao morrer:
“Consolai-vos comigo, porque deixo este vale de lágrimas e vou para a pátria da paz”.
Se alguém — disse São Cipriano — habitasse numa casa cujas paredes ameaçassem ruínas, cujo pavimento e teto estremecessem, quanto não desejaria sair dela?… Nesta vida tudo ameaça ruína da alma: o mundo, o inferno, as paixões, os sentidos rebeldes, tudo nos leva ao pecado e à morte eterna.
“Quem me livrará — exclamava o Apóstolo — deste corpo de morte?” (Rm 7,24).
Que alegria sentirá a alma quando ouvir:
“Vem, minha esposa, sai do lugar do pranto, da cova dos leões que te quiseram devorar e fazer perder a graça divina” (Ct 4,11).
Por isso, São Paulo, desejando morrer, dizia que Jesus Cristo era a sua única vida, e que estimava a morte como o maior tesouro que pudesse ganhar, já que por meio dela alcançaria a vida que jamais tem fim (Fp 2,21).
Grande obséquio faz Deus à alma em estado de graça, retirando-a deste mundo, onde poderia transviar-se e perder a amizade divina (Sb 4,11). Feliz aquele que nesta vida está unido a Deus; mas, como o navegante não pode dizer-se seguro enquanto não chega ao porto e ao abrigo da tormenta, assim uma alma só pode ser verdadeiramente feliz, quando sai da vida na graça de Deus. Louva a ventura do navegante que chegou ao porto — disse Santo Ambrósio… Se o navegante se alegra quando, após tantos perigos, está a chegar ao porto desejado, quanto mais se não deve alegrar aquele que está próximo a assegurar sua eterna salvação? Ademais, neste mundo não podemos viver sem culpas, ao menos leves; porque sete vezes cairá o justo (Pr 21,16). Mas aquele que sai desta vida, cessa de ofender a Deus. Que é a morte — disse o mesmo Santo — senão o sepulcro dos vícios?. Mais um motivo para os que amam a Deus desejarem vivamente a morte. O venerável P. Vicente Caraffa consolava-se ao morrer, dizendo: Terminando minha vida, acabam minhas ofensas a Deus. E o já citado Santo Ambrósio dizia: Para que desejamos mais longa vida, se, quanto mais longa for, de maior peso de pecado nos carrega? O que falece na graça de Deus chega ao estado feliz de não saber nem poder ofendê-lo mais. O morto não sabe pecar. Eis o motivo por que o Senhor louva mais os mortos que os vivos, ainda que sejam santos (Ec 4,2). Não faltou quem ordenasse que, à hora da morte, lha anunciassem por estes termos: Alegra-te, que chegou o tempo em que não mais ofenderás a Deus.

AFETOS E SÚPLICAS

“Em tuas mãos encomendo meu espírito. Tu me remiste, Senhor, Deus da Verdade” (Sl 30,6). Ó doce Redentor meu, que seria de mim se me tivésseis entregado à morte quando me achava afastado de vós?…
Estaria no inferno, onde não vos poderia amar. Agradeço-vos o não me terdes abandonado, e me concederdes tantas graças para atrair o meu coração. Arrependo-me de vos ter ofendido. Amo-vos sobre todas as coisas. Rogo-vos que sempre me façais conhecer o mal que cometi, desprezando-vos, e o grande amor que merece vossa infinita bondade.
Amo-vos, e, se assim vos apraz, desejo morrer cedo para evitar o perigo de tornar a perder vossa santa graça, e para estar seguro de vos amar eternamente. Dai-me, pois, ó amado Jesus, durante o tempo que me resta de vida, força e ânimo para vos servir antes que chegue a morte. Dai-me força para vencer a tentação e as paixões, sobretudo aquelas que na vida passada mais me levaram a ofender-vos. Dai-me paciência para sofrer as enfermidades e as ofensas que do próximo receber. Eu, por vosso amor, perdoo a todos os que me ofenderam, e vos suplico que lhes outorgueis as graças que desejarem. Dai-me força para que seja mais diligente em evitar as faltas veniais que a miúdo cometo. Ajudai-me, meu Salvador, tudo espero de vossos méritos…
Deposito toda a minha confiança em vossa intercessão, ó Maria, minha mãe e minha esperança!

PONTO III

A morte não é somente o fim dos nossos trabalhos, senão também a porta da vida, como disse São Bernardo. Necessariamente, deve passar por esta porta quem quiser entrar a ver a Deus (Sl 117,20). São Jerônimo dirigia à morte esta súplica: Ó morte, minha irmã, se me não abres a porta, não posso ir gozar da presença do meu Senhor! (Ct 5,2).
São Carlos Borromeu, tendo visto em um dos seus aposentos um quadro que representava um esqueleto com a foice na mão, mandou chamar o pintor e ordenou-lhe que substituísse aquela foice por uma chave de ouro, querendo assim inflamar-se mais do desejo de morrer, porque a morte nos abre o céu e nos proporciona a visão de Deus.
Disse São João Crisóstomo que, se um rei tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, os mandasse viver num estábulo, quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!… Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, donde há de sair para habitar o palácio dos céus; é por esta razão que David dizia:
“Livrai minha alma da prisão” (Sl 141,8).
E o santo velho Simeão, quando tinha nos braços o Menino-Jesus, não lhe soube pedir outra graça, senão a da morte, a fim de ver-se livre do cárcere desta vida:
“Agora, Senhor, despede o teu servo…” (Lc 2,29), isto é, adverte Santo Ambrósio, — pede ser despedido, como se estivesse preso à força”.
Por essa mesma graça suspirava o Apóstolo, quando dizia:
“Tenho desejo de me ver livre desta carne, e estar com Cristo” (Fl 3,32).
Quanta alegria sentiu o copeiro do Faraó ao saber de José que dentro em pouco sairia da prisão e voltaria ao exercício de seu posto. E uma alma que ama a Deus não se regozijará ao pensar que em breve sairá da prisão deste mundo para ir gozar a Deus? Enquanto vivemos unidos ao corpo, estamos impedidos de ver a Deus, e como em terra estranha, fora da pátria. Com razão disse São Bruno que a nossa morte não se deve chamar morte, senão vida.
Daí vem o chamar-se nascimento a morte dos Santos, porque nesse instante nascem para a bem-aventurança eterna, que não terá fim.
“Para o justo — disse Santo Atanásio — não há morte, apenas trânsito, porque, para ele, morrer não é outra coisa que passar para a eternidade feliz”.
“Ó morte amável! — exclama Santo Agostinho — quem não tem te desejará, pois és fim dos trabalhos, termo das angústias, princípio do descanso!”
E com instância pedia: Oxalá morresse, Senhor, para vos poder ver! O pecador teme a morte — diz São Cipriano, — porque da vida temporal passará à morte eterna, mas não aquele que, estando na graça de Deus, há de passar da morte à vida. Na vida de São João, o Esmoler, se
refere que um homem rico dera ao Santo esmolas avultadas, a fim de pedir este a Deus vida longa para o único filho que ele tinha. Mas o moço morreu pouco tempo depois. Como o pai se lamentasse dessa morte inesperada, Deus lhe enviou um anjo que lhe disse:

“Pediste longa vida para teu filho, pois saibas que já está no céu gozando da eterna felicidade.”
Tal é a graça que vos alcança Jesus Cristo, segundo a promessa que foi feita pelo profeta Oséias:
“Ó morte, eu hei de ser a tua morte” (Os 13,14).
Cristo, morrendo por nós, fez com que a morte se transformasse em vida. Aqueles que conduziram ao suplício o mártir São Piôncio, perguntaram-lhe maravilhados como podia ir tão alegremente para a morte.
“Ah! — respondeu o Santo, — estais enganados! Não vou para a morte e sim para a vida”
Do mesmo modo também a mãe do jovem Sinforiano exortava seu filho quando estava para sofrer o martírio:
“Ó meu filho, não vão tirar-te a vida, senão para convertê-la em outra melhor!”

AFETOS E SÚPLICAS

Ó Deus de minha alma! Ofendi-vos em minha vida passada, afastando- me de vós; mas vosso Divino Filho vos honrou na cruz com o sacrifício de sua vida. Em consideração dessa honra que vos tributou vosso Filho amantíssimo, perdoai-me as injúrias que vos fiz. Arrependo- me, Senhor, de vos ter ofendido, e prometo amar somente a vós doravante. De vós espero minha eterna salvação, assim como reconheço que todos os bens que possuo, houve-os de vossa graça, pois todos são dons de vossa bondade. “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Cor 15,10). Se, pelo passado, vos ofendi, espero honrar-vos eternamente, louvando vossa misericórdia… Sinto vivíssimo desejo de vos amar… Sois vós, Senhor, que mo inspirais, e vos dou, meu amor, fervorosas graças.
Continuai, continuai a ajudar-me como agora, que espero ser vosso, inteiramente vosso. Renuncio aos prazeres deste mundo. Que maior gozo, Senhor, posso ter que comprazer-me em vós, meu Senhor, que sois tão amável e que tanto me tendes amado? Só vos peço amor, ó Deus de minha alma! Amor e sempre amor espero pedir-vos, até que, morrendo em vosso amor, alcance o reino do verdadeiro amor, onde, sem o pedir, de amor me abrase, não cessando de vos amar nem um momento por toda a eternidade, e com todas as minhas forças.
Maria, minha Mãe, que tanto amais a Deus e tanto desejais que seja amado, fazei que muito o ame nesta vida, a fim de que possa amá-lo para sempre na eternidade!
(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Preparação para a Morte – Considerações sobre as verdades eternas. Tradução de Celso Alencar em pdf, 2004, p. 77-89)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A alma culpada diante do Juiz Divino

Omnes nos manifestari oportet ante tribunal Christi – “Todos nós devemos manifestar-nos diante do tribunal de Cristo” (2 Cor 5, 10)
Sumário. Têm-se visto criminosos banhados em suor frio, na presença de um juiz terrestre. Que maior terror não deve sentir o pecador diante do tribunal de Jesus Cristo? Ó céus! Verá acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, ao outro os demônios armados para o seu suplício. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, impressionado por esta grande verdade, resolveu deixar o mundo e fez-se religioso. Meu irmão, o que farás? Continuarás a viver em teu estado de tibieza?
I. É sentimento comum entre os teólogos, que o juízo particular se faz logo que o homem expira, e que no próprio lugar onde a alma se separa do corpo, aí é julgada por Jesus Cristo, que não manda alguém em seu lugar, mas vem ele mesmo para a julgar. Qual não será o espanto daquele que, vendo pela primeira vez seu Redentor, o vir indignado!
Ante faciem indignationis eius quis stabit? (1) – “Diante da face de sua indignação quem é que poderá subsistir?” Este pensamento causava tal estremecimento ao Padre Luiz Dupont, que fazia tremer consigo a cela onde se achava. O Bem-aventurado Juvenal Ancina, ouvindo cantar o Dies irae, e pensando no terror que se há de apoderar da alma ao comparecer em juízo, resolveu deixar o mundo, o que efetivamente fez. – O aspecto do Juiz indignado será o anúncio da condenação: Indignatio regis, nuntii mortis (2). Segundo São Bernardo, será maior sofrimento para a alma ver Jesus Cristo indignado do que estar no inferno.
Têm-se visto criminosos banhados em suor frio na presença de um juiz terrestre. Pison, comparecendo no senado em traje de réu, sentiu tamanha confusão, que a si próprio se deu a morte. Que pena não é para um filho ou para um vassalo ver seu pai ou seu príncipe indignado! Que maior mágoa não deve sentir a alma à vista de Jesus Cristo, a quem desprezou durante toda a vida! Videbunt in quem transfixerunt (3) – “Verão aquele a quem traspassaram”. Esse Cordeiro, tão paciente durante a vida do pecador, então mostrar-se-lhe-á irritado, sem esperança de se deixar aplacar. Pelo que a alma pedirá às montanhas que a esmaguem e a furtem às iras do Cordeiro indignado: Montes, cadite super nos, abscondite nos ab ira Agni (4).
II. Opinam os Doutores que o divino Juiz virá julgar a alma em forma humana, e portanto com as mesmas chagas com que deixou a terra. Estas chagas serão motivo de consolação para os justos, mas que terror e espanto não inspirarão ao pecador! A vista do Homem-Deus, que, morreu para o salvar, far-lhe-á sentir mais vivamente a sua ingratidão.
Quando José do Egito disse a seus irmãos: Eu sou José, a quem vendestes, diz a Escritura, que pelo terror perderam a fala e ficaram calados (5). Que responderá, pois, o pecador a Jesus Cristo? Terá coragem de lhe pedir misericórdia, quando, primeiro que tudo, tem de lhe dar contas do abuso que fez da misericórdia? Que fará então? Pergunta Santo Agostinho, para onde fugirá o miserável, quando vir acima de si o Juiz irritado, por baixo o inferno aberto, a um lado os pecados que o acusam, a outro os demônios armados para execução do suplício e dentro de si os remorsos de sua consciência?
Ó meu Jesus, quero chamar-Vos sempre Jesus; vosso nome me consola e me anima, recordando-me que sois o Salvador que morreu para me salvar. Aqui me tendes a vossos pés; confesso que mereci o inferno tantas vezes quantas Vos ofendi pelo pecado mortal. Sou indigno de perdão, mas Vós morrestes para me perdoar. Ah, meu Jesus, perdoai-me antes de virdes a julgar-me. Então não poderei implorar a vossa misericórdia; mas agora posso pedi-la e espero-a. Então vossas chagas me inspirarão terror, agora insipiram-me confiança. Meu querido Redentor, acima de todos os males, arrependo-me de ter ofendido a vossa bondade infinita. Estou resolvido, antes, a aceitar todas as penas, todos os sacrifícios, do que vir a perder a vossa graça. Amo-Vos de todo o coração. Tende piedade de mim, segundo a vossa grande misericórdia: Miserere mei secundum magnam misericordiam tuam (6).
– Ó Maria, Mãe de misericórdia, Advogada dos pecadores, obtentede-me uma grande dor dos meus pecados, o perdão e a perseverança no amor divino. Amo-vos, ó minha Rainha, e em vós ponho minha confiança.
Referências:
(1) Na 1, 6
(2) Pv 16, 14
(3) Jo 19, 37
(4) Ap 6, 16
(5) Gn 45, 4
(6) Sl 50, 1

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 309-311)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 27 - A Ordem



Catecismo Ilustrado - Parte 27

Os Sacramentos

A Ordem

1. A Ordem é o sacramento instituído por Jesus Cristo, pelo qual se confere o poder de consagrar, oferecer e administrar a Eucaristia, e exercer as outras funções eclesiásticas.

2. Este sacramento dá virtude e Graça aos sacerdotes e outros ministros da Igreja para bem cumprir os seus ofícios.

3. Os que abraçam o estado eclesiástico devem ter por fim a glória de Deus e a salvação eterna do próximo.

4. Somente aos bispos pertence administrar o sacramento da Ordem, porque têm a plenitude do sacerdócio.

5. As disposições necessárias para receber o sacramento da Ordem são principalmente três: 1º vocação, isto é, ser chamado por Deus para o estado eclesiástico; 2º uma vida exemplar e devota; 3º suficiente doutrina.

6. Há sete graus no sacramento da Ordem, quatro menores e três maiores. Os quatro menores graus do sacramento da Ordem são: ostiário, leitor, exorcista e acólito. As três Ordens maiores ou Ordens sacras são: Subdiácono, Diácono e Presbítero, que é o mesmo que a de epístola, de Evangelho, e de presbítero ou de Missa.

7. Há uma diferença quase infinita entre os sacerdotes e os que o não são. Basta dizer que o Filho do Altíssimo Ilhe obedece, vindo à terra realmente num instante toda vez que o sacerdote o diz na consagração.

8. Devemos pois ao sacerdote todo o respeito, pelos dois poderes que Deus lhe deu, um sobre o Filho de Deus feito homem que obedece à sua voz, e outro o de perdoar os pecados que são ofensas feitas a Deus.

9. Se o sacerdote não tiver costumes adequados a esta grande dignidade, devemos respeitar o caráter do sacramento, e ter compaixão e caridade da pessoa.

10. Para com aqueles que são promovidos às ordens, devemos: 1º orar a Deus para que se digne conceder à sua Igreja bons pastores e zelosos ministros; 2º ter-lhes particular respeito e veneração.

Explicação da gravura

11. A parte principal da gravura representa São Pedro conferindo a Ordem aos sete primeiros diáconos. Como o número de cristãos aumentasse de dia para dia, e como os Apóstolos não pudessem cumprir todas as funções do seu ministério, mandaram eleger na assembleia dos fiéis sete diáconos que os substituíssem na distribuição das esmolas às viúvas, órfãos e pobres. Rogando a Deus pelos escolhidos, os Apóstolos conferiram-lhes a Ordem do Diaconato pela imposição das mãos.

12. Na parte superior, vê-se o Bispo conferindo as ordens menores. À esquerda, confere o Bispo a Ordem do ostiário mandando tocar as chaves da igreja. A seguir, o Bispo confere a Ordem de leitor mandando tocar o missal. No ângulo direito, na parte esquerda, o Bispo confere a Ordem de exorcista, cuja função é de expulsar os demônios, mandando tocar o livro dos exorcismos. Por fim, na quarta parte, o Bispo confere a Ordem de acólito mandando tocar um castiçal com vela e as galhetas.

13. Na parte inferior divide-se em três: na primeira, à esquerda, o Bispo ordena um subdiácono, cuja função é de servir o diácono no altar, e de cantar a epístola na Missa Solene. Para ordená-lo o Bispo manda o ordinando a tocar o cálice, a patena e o livro das epístolas. O subdiácono obriga-se à castidade perpétua e à recitação quotidiana do ofício divino.

14. Na última parte, à direita, o Bispo confere a Ordem sacra do Diaconato. As funções do diácono são de ajudar o sacerdote na Missa, cantar o Evangelho, pregar e batizar. Hoje em dia, o diácono não pode pregar nem batizar sem especial licença do Bispo. Confere essa Ordem o Bispo com a imposição das mãos, dizendo: “Recebe o Espírito Santo, para teres a força de resistir ao demônio e às suas tentações”.


15. Enfim na parte do meio, o Bispo confere a Ordem de Sacerdote, cujas funções são dizer Missa, pregar e administrar os sacramentos. O Bispo confere esta Ordem com a imposição das mãos sobre os ordinandos, e com ele todos os sacerdotes presentes; manda tocar o cálice com vinho e a patena com a hóstia, dizendo ao mesmo tempo: “Recebe o poder de oferecer a Deus o Sacrifício e de celebrar a Missa pelos vivos e pelos mortos”.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O Menino Jesus, sobre as palhas, ensina-nos a Mortificação


Et reclinavit eum in praesepio – “E reclinou-o numa manjedoura” (Jo 2, 7)
Sumário. Visto que Maria não tinha nem plumas nem lã, para preparar um leito conveniente para o seu tenro Filhinho, estende um pouco de palha numa manjedoura e nela reclina o Menino recém-nascido. Quão duro não devia ser tal leito aos membros delicados de Jesus Cristo!… Mas Jesus quis sofrer isso afim de remediar assim os pecados, que causaram a perdição do mundo, e começar desde o berço a ensinar-nos o amor dos sofrimentos e a mortificação dos sentidos. E depois de tal exemplo continuaremos a acariciar esta carne rebelde ?

I. Jesus nasce na gruta de Belém. Já que a pobre Mãe não tem nem lã nem plumas para preparar um leito conveniente para o seu tenro Filhinho, que faz? Estende um pouco de palha numa manjedoura e nela reclina o Filho recém-nascido: Et reclinavit eum in praesepio. Mas, ó Deus, tal leito é duro e penoso demais para um menino que acaba de nascer. Os membros de uma criança são demasiado delicados, e especialmente os de Jesus, feitos pelo Espírito Santo extremamente delicados, afim de que fossem mais sensíveis às dores: Corpus autem aptastit nihil — “Formaste-me um corpo” (1). Pelo que lhe foi em extremo doloroso um leito tão duro.
Foi uma dor e uma ignomínia. Pois, que filho de um homem, da mais vil condição que seja, é colocado, logo depois de nascido, sobre a palha? A palha é leito próprio dos animais; e o Filho de Deus não tem na terra outro leito senão a palha! Quando um dia São Francisco de Assis estava sentado à mesa, ouviou ler estas palavras do Evangelho: “Reclinou-o numa manjedoura”; e disse: “Como? O meu Senhor está deitado sobre a palha, e eu hei de ficar sentado?“. Levantou-se logo, e terminou a sua pobre refeição sentado no chão, entre lágrimas de ternura ao contemplar o quanto devia sofrer Jesus Menino, deitado sobre a palha.
Mas porque é que Maria, que tanto tinha suspirado pelo nascimento do Filho, que tanto o amava, não o guardou nos braços em vez de o expor a tão grande sofrimento num leito tão duro? É um mistério, diz Santo Thomas de Vilanova: Neque illum tali loco posuisset, nisi magnum aliquod mysterium ageretur. Deste mistério há diversas explicações, mas entre todas mais me agrada a de São Pedro Damião. Jesus recém-nascido quis ser posto sobre a palha para nos ensinar a mortificação dos sentidos: Legem martyrii praefigurabat. O mundo havia-se perdido pelas satisfações dos sentidos; por elas se havia perdido Adão, e depois dele um sem numero dos seus descendentes até o dia de hoje. O Verbo eterno desceu do céu para nos ensinar o amor dos sofrimentos, e começou a no-lo ensinar desde criança, escolhendo para si os sofrimentos mais ásperos que uma criança pode suportar. — Foi, pois, ele mesmo quem inspirou a Maria, que em vez de o guardar nos seus tenros braços, o pusesse sobre aquele leito tão duro, afim de sentir mais o frio da gruta e as picadas da rude palha.
II. Ó terno amante das almas, ó amável Redentor meu, não Vos satisfazem a dolorosa Paixão que Vos aguarda, e a morte cruel da cruz que Vos preparam; quereis começar a padecer desde o primeiro momento da vossa existencial Sim, porque desde o vosso nascimento quereis começar a ser meu Redentor e satisfazer pelos meus pecados à divina justiça. Escolheis palha por leito, para que me livreis do fogo do inferno, onde tantas vezes mereci ser precipitado. Chorais e gemeis sobre essa palha para me obterdes do vosso Pai, pelas vossas lágrimas, o perdão das minhas faltas.
Ah! Quanto me afligem essas lágrimas e me consolam também! Afligem-me pela compaixão que sinto ao ver-Vos, Menino inocente, sofrer tanto por crimes que não cometestes. Consolam-me, porque nos vossos sofrimentos vejo a minha salvação e o vosso imenso amor para comigo. Mas, meu Jesus, não Vos quero deixar chorar e sofrer sozinho; quero chorar convosco, pois só eu é que devo chorar os desgostos que Vos causei. Já que mereci o inferno, não recuso sofrimento algum, contanto que recupere a vossa amizade.
Perdoai-me, ó Salvador meu, restitui-me a vossa amizade, fazei que Vos ame e castigai-me segundo a vossa vontade. Livrai-me das penas eternas, e depois disponde de mim como quiserdes. Não Vos peço consolações nesta vida; é indigno delas quem teve a petulância de Vos ofender, ó bondade infinita. Pronto estou a sofrer todas as cruzes que me enviardes; mas quero amar-Vos, Jesus meu.
— Ó Maria, fiel companheira de Jesus em todas as suas dores, alcançai-me a força de suportar as minhas penas com paciência. Ai de mim, se, depois de tantos pecados, não sofrer alguma coisa na vida presente. E feliz de mim, se sofrendo puder acompanhar-vos, ó minha dolorosa Mãe, e ao meu Jesus, sempre aflito e crucificado por meu amor.
Referências:
(1) Hb 10, 5

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 413-415)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

E que seria o mundo sem o sangue de Jesus Cristo?






















"E que seria o mundo sem o sangue de Jesus Cristo?

O mundo seria insuportável, a vida sem esperança, as desgraças sem consolação.

Quaisquer que sejam as pretensões da ciência; qualquer que seja a presunção do espírito moderno; é o sangue de Jesus Cristo que detém suspensa sobre o mundo a cólera divina; que permite ainda a humanidade, no meio de tantos erros, calamidades e tristezas, algumas felicidades no seu exílio.

Vinde; vinde vós todos, espíritos modernos, inchados da vossa filantropia, que pretendeis dar aos homens testemunhos ainda não vistos de fraternidade, sempre prometida, nunca realizada pelas vossas ciências, pelas vossas filosofias, pelas vossas políticas; vinde ver, vinde aprender na Agonia do Jardim como se ama a humanidade.


E vós também, falsos profetas, Messias impostores do século 19, que prometeis aos povos novas religiões, e os quereis convencer de que eles devem esperar maiores e melhores provas de amor de Deus; vinde ver na Agonia do Jardim se o amor de Jesus Cristo pode ser excedido!

Vinde vós todos, também, espíritos modernos, que na tragédia, no drama, no romance, na música, na pintura ou escultura, tendes alimentado a ardente ambição de ver realizado na terra o ideal do Amor; vinde – vinde vê-lO realizado na Agonia do Jardim!


Tudo o que a imaginação pode conceber; tudo o que o coração pode desejar; tudo o que a alma humana pode sonhar – ei-lo realizado!

Todas as ciências, todas as literaturas, todas as artes não podem traduzir um ideal igual.

A Agonia no Jardim é a última palavra do amor.

É o sacrifício completo, não imposto por uma força exterior, pelas prevaricações da justiça, pela crueldade dos judeus, pela brutalidade dos carrascos, mas pela própria vontade da vítima.

É a vitima sacrificada pelo gládio inflamado do Seu próprio amor.

Jesus Cristo tinha dito que o Seu sacrifício seria voluntário: 'voluntarie sacrificabo tibi'.


Pois bem; o que no Calvário, diz um padre, poderia parecer resultado de vontade exterior, no Jardim mostra-se como o resultado da própria vontade de Jesus Cristo.

Ali, nem tormentos, nem golpes, nem feridas.


A traição de Judas, a injustiça de Pilatos, a crueldade dos carrascos não têm parte no sacrifício. Nenhum delito desonra tão grande sacramento; nenhuma infâmia macula uma oferenda tão pura; nenhuma boca escarnece tão divina imolação.

O amor é a Sua própria vitima, o Seu próprio altar, o Seu próprio pontífice.

E o sacrifício de Jesus Cristo é completo; porque Sua vontade é o instrumento que Lhe abre as veias, Sua santidade é o altar onde corre o sangue, e o amor é o pontífice que O oferece ao Pai!"

✞ ORAÇÃO AO PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE JESUS, DE SANTA CATARINA DE SIENA

Preciosíssimo sangue; oceano da divina misericórdia:

Derramai-vos sobre nós!
Preciosíssimo sangue; a mais pura oblação:
Obtenha-nos toda a graça!
Preciosíssimo sangue; auxílio e refúgio dos pecadores:
Purificai-nos!
Preciosíssimo sangue; delícia das almas santas:
Guiai-nos! Amém!



(Fontes: 1. texto: A Paixão, pelo Padre Júlio Maria de Lombaerde, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, ano de 1937 - blog A Grande Guerra; 2. oração: site Derradeiras Graças)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 26 - A Extrema-Unção


Catecismo Ilustrado - Parte 26

Os Sacramentos

A Extrema-Unção

1. A Extrema-Unção é o sacramento instituído por Jesus Cristo para o alívio espiritual e corporal dos enfermos.

2. Chama-se “Unção” porque consiste em ungir o enfermo com azeite de oliveira benzido pelo Bispo.

3. Diz-se “Extrema” porque é a última entre as unções que se dão nos sacramentos da Igreja, e também porque se dá no fim da vida.

4. Chama-se também “Santos Óleos”, porque, como já se disse, a sua matéria é o óleo ou azeite benzido pelo Bispo na quinta-feira santa.

5. Este sacramento produz na alma os seguintes efeitos: apaga os vestígios dos pecados e as faltas veniais, dá Graça e fortaleza à alma para combater com o demônio naquele último momento de agonia.

6. Quanto ao corpo, a Extrema-Unção ajuda também a receber a saúde do corpo, se esta for útil para a salvação da alma.

7. O ministro deste sacramento é só o pároco, ou qualquer sacerdote por ele autorizado.

8. A Extrema-Unção deve administrar-se aos enfermos que estão em perigo de vida.

9. Não se deve esperar que estejam na iminência da morte; é muito proveitoso que estejam ainda em seu juízo e tenham alguma esperança de vida.

10. Pode dar-se aos meninos, logo que cheguem ao uso da razão, mesmo que não tenham ainda comungado.

11. Pode dar-se em toda a doença perigosa, e até na mesma doença pode receber-se mais de uma vez, se o enfermo, depois de o ter recebido, se restabelecer e depois tornar a cair em perigo de vida.

12. As disposições necessárias para receber este sacramento são: Estar na Graça de Deus, porque é um sacramento dos vivos, e é necessário recebê-lo com sentimentos de Fé, Esperança e resignação. Por consequência, se o enfermo estiver em estado de pecado mortal, deveria fazer antes uma boa confissão. Se não pudesse confessar-se, deveria fazer um ato de contrição, com voto de se confessar.

13. As unções fazem-se nos sentidos do corpo do enfermo, nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, nas palmas das mãos, nas plantas dos pés, se for possível.

14. Fazem-se as unções em todas as partes do corpo para que Nosso Senhor, por virtude deste sacramento, perdoe o que o enfermo pecou através dos olhos, ouvidos, nariz, mãos e pés.

15. O enfermo, quando recebe este sacramento, deve acompanhar com o coração as orações que diz o sacerdote, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos pelo mau uso dos sentidos.

16. O sacerdote diz certas orações quando administra a Extrema-Unção para alcançar de Deus, a favor do enfermo, a Graça do sacramento.

17. Os que assistem devem orar a Deus de coração e encomendar à sua misericórdia a vida e a salvação do enfermo.

18. Depois de recebida a Extrema-Unção, o doente deve:

1º dar graças a Deus pelo benefício que lhe concedeu com este sacramento; 2º resignar-se inteiramente à Sua vontade; 3º não pensar noutra coisa senão Deus e na eternidade.

19. O santo Concílio Tridentino diz: “Se alguém disser que a Extrema-Unção não é um verdadeiro sacramento instituído por Nosso Senhor Jesus Cristo, seja anatematizado”.

20. Somos obrigados a advertir os doentes a receberem os últimos sacramentos e é o maior serviço que lhes podemos fazer, pois muitas vezes disso depende a salvação eterna. Se não pudermos adverti-los direitamente, ao menos devemos prevenir o pároco da sua freguesia.

21. Quando o doente estiver em agonia, devem os assistentes rezar as orações dos agonizantes e aspergi-lo com água benta.




Explicação da gravura

22. A gravura representa um Apóstolo administrando os santos óleos a um enfermo. Vê-se um anjo com uma inscrição: “Está entre vós algum enfermo? Que chame o sacerdote, e o que este o unja em nome do Senhor, que o aliviará e perdoará os seus pecados”. (Tiago V, 14) Vê-se outro anjo que lhe aponta o Céu, mostrando-lhe ao mesmo tempo uma coroa.

sábado, 14 de outubro de 2017

PRÁTICA DA DEVOÇÃO A MARIA SANTÍSSIMA



Venerunt mihi omnia bona pariter cum illa — “Todos os bens me vieram juntamente com ela” (Sap. 7, 11).
Sumário. Para que os nossos obséquios agradem à Mãe de Deus e nos façam dignos de seu patrocínio, duas coisas são necessárias: primeiro, devemos tributá-los com coração puro ou, ao menos, com o desejo de nos emendarmos; segundo, devemos ser constantes. Ah, quanto dos que estão agora no inferno teriam sido santos se tivessem perseverado nos seus obséquios à Santa Virgem! Lancemos um olhar sobre nós mesmos. Com que coração oferecemos à Maria as nossas homenagens? Qual é a nossa perseverança em oferecê-las?
É tão liberal e grata a Rainha do céu, que, no dizer de Santo André Cretense, recompensa com riquíssimos prêmios os pequenos obséquios de seus servos. Para isto, contudo, são necessárias duas coisas: A primeira, que ofereçamos os nossos obséquios com a alma pura de pecados, ou ao menos com o desejo de sairmos dos vícios e da tibieza. Pois, se alguém quisesse continuar a pecar, com a esperança de que Maria o havia de salvar por causa daquela sombra de devoção, pela sua culpa própria se tornaria indigno e insuscetível da proteção de nossa Senhora. — A segunda condição é que se persevere na devoção à Virgem; porque, como diz São Bernardo: “Só a perseverança merece a coroa.” É muito notável a resposta que São João Berchmans deu na hora da morte a seus companheiros, quando estes lhe perguntaram o que deviam fazer para merecerem a proteção de Maria: Quidquid minimum, dummodo sit constans. — Por pouco que seja, contanto que seja constante.
Os obséquios mais agradáveis à Virgem são os seguintes: Consagrar-se-lhe de manhã e à noite, rezando três Ave-Marias. Recorrer freqüentemente à sua intercessão, mormente nos perigos de ofender a Deus e nunca recusar uma coisa que for pedida por amor dela. Alistar-se em alguma congregação da Virgem. Excitar os outros, por palavras e exemplos, a praticarem a devoção para com Nossa Senhora. Trazer sempre o santo escapulário e rezar, impreterivelmente, cada dia o Terço ao  pé de uma imagem de Maria. Jejuar no sábado e nas vésperas das festas principais. Celebrar ou fazer celebrar ou pelo menos ouvir uma missa em honra da Virgem; e honrar seus santos parentes e outros santos que mais se distinguiram em sua devoção. Finalmente celebrar com fervor as novenas de preparação para as suas festas; propondo-se a emenda de algum vício, ou a imitação de alguma virtude especialmente apropriada ao estado da alma e aproximando-se dos santos sacramentos.
Mas não te exorto tanto a praticar todos estes obséquios, como a praticares os que possas escolher ou já tenhas escolhido, com perseverança, temendo que, se te descuidares deles no futuro, percas a proteção da divina Mãe. Oh! Quantos daqueles que agora estão no inferno, teriam sido santos do paraíso, se tivessem perseverado nos obséquios a Maria, uma vez escolhidos e principiados!
Para conservação de teu fervor na devoção à grande Mãe de Deus, é utilíssimo escolheres cada ano, entre as outras, alguma festividade da Virgem, à qual tenhas maior devoção e ternura, e fazeres nesta uma preparação particular, para de novo te dedicares de modo mais especial ao seu serviço, elegendo-a por tua Senhora, Advogada e Mãe. Nesse dia, depois da comunhão, pedir-lhe-ás perdão das negligências em servi-la no ano passado e prometer-lhe-ás maior fidelidade para o ano seguinte. Rogar-lhe-ás, enfim, que te aceite por servo e te obtenha uma santa morte.
Santíssima Virgem e Mãe de Deus, Maria, eu, ainda que indigníssimo de ser vosso servo, confiado contudo na vossa admirável bondade e urgido pelo desejo de vos servir, vos escolho hoje, em presença do meu Anjo da Guarda e de toda a corte celeste, para minha particular Soberana, Advogada e Mãe. Tomo a firme resolução de vos amar e servir sempre no futuro e de fazer o que possa para que de todos sejais amada e servida.
Suplico-vos, ó Mãe de Deus e minha Mãe piedosíssima e amabilíssima, suplico-vos pelo sangue de vosso divino Filho, derramado por mim, vos digneis admitir-me entre o número de vossos devotos, para vosso filho e servo perpétuo. Assisti-me em todos os meus pensamentos, palavras e ações e em todos os instantes de minha vida; de modo que todos os meus passos, todas as minhas respirações sejam ordenados para a maior glória de Deus. Fazei pela vossa intercessão poderosíssima que nunca mais ofenda o meu amado Jesus, mas sim, o glorifique e ame durante toda a minha vida. Dai-me também grande amor para convosco, minha Mãe queridíssima, a fim de vos amar e gozar de vossa presença no paraíso, por todos os séculos. (*I 272.)
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III – Santo Afonso
Fonte: