sexta-feira, 21 de julho de 2017

"Ao entardecer da vida examinar-te-ão no amor" S. João da Cruz




S. João da Cruz, confessor e doutor da Igreja, foi o responsável pela reforma da Ordem Carmelita, juntamente com S. Teresa de Ávila e é considerado um dos maiores místicos de sempre. A Igreja diz que seu o zelo e o sucesso dos seus esforços causaram-lhe provações humilhantes, que lhe ensinaram a subir, dentro da “noite escura”, até à experiência mística do “nada” do homem diante da Majestade Divina. 

Algumas frases da sua autoria:

"A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer, sente-se impedida na sua liberdade e contemplação."

"O mais leve movimento duma alma animada de puro amor é mais proveitoso à Igreja do que todas as demais obras reunidas."

"Meus são os Céus e minha é a Terra, meus são os homens, e os justos são meus; e meus os pecadores. Os Anjos são meus, e a Mãe de Deus, todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, pois Cristo é meu e tudo para mim." (Sobre a Eucaristia)

"Não faça coisa alguma, nem diga palavra alguma que Cristo não faria ou não diria se Se encontrasse as mesmas circunstâncias."

"Renuncie aos desejos e encontrará o que o seu coração deseja."

"Que felicidade o homem poder libertar-se da sua sensualidade! Isto não pode ser bem compreendido, a meu ver, senão por quem o experimentou. Só então se verá claramente como era miserável a escravidão em que se estava."

"Quem se queixa ou murmura não é cristão perfeito, nem mesmo um bom cristão."

"Senhor, quero padecer e ser desprezado por amor a Vós."

"A pessoa que está presa por algum afecto a alguma coisa, mesmo pequena, não alcançará a união com Deus, mesmo que tenha muitas virtudes. Pouco importa se o passarinho está com um fio grosso ou fino...ficará sempre preso e não poderá voar."

"Para possuir Deus plenamente é preciso nada ter, porque se o coração pertence a Ele, não pode voltar-se para outro."

"O demónio teme a alma unida a Deus como ao próprio Deus."

"O afecto e o apego da alma à criatura torna-a semelhante a esta mesma criatura. Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, porque é próprio do amor tornar aquele que ama semelhante ao amado."

"O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em despojar-se e sofrer pelo amado."

"A pessoa que caminha para Deus e não afasta de si as preocupações, nem domina as suas paixões, caminha como quem empurra um carro encosta a cima."

"A constância de ânimo, com paz e tranquilidade, não só enriquece a pessoa, como a ajuda muito a julgar melhor as adversidades, dando-lhes a solução conveniente."




quinta-feira, 20 de julho de 2017

Os ataques do tentador


Se, depois o baptismo, fores atacado pelo perseguidor, o tentador da luz, tens material para a vitória. Ele irá certamente atacar-te, já que também atacou o Verbo, o meu Deus, enganado pela aparência humana que lhe escondia a luz incriada. Não tenhas medo do combate. Opõe-lhe a água do batismo, opõe-lhe o Espírito Santo no qual se extinguem todos os dardos inflamados lançados pelo maligno. 

Se ele te mostrar as necessidades que te oprimem – e não deixou de o fazer com Jesus –, se te lembrar que tens fome, não dês a entender que ignoras as suas propostas. Ensina-lhe o que ele não sabe; opõe-lhe a Palavra de vida, esse verdadeiro Pão enviado do céu e que dá a vida ao mundo. 

Se ele te estender a armadilha da vaidade – e usou-a contra Cristo, quando O levou ao pináculo do Templo e Lhe disse: «Deita-Te daqui abaixo», para O fazer manifestar a sua divindade –, toma cuidado para não caíres por teres querido elevar-te

Se te tentar pela ambição, mostrando-te, numa visão instantânea, todos os reinos da terra submetidos ao seu poder, e te exigir que o adores, despreza-o: ele não é mais que um pobre irmão teu. E diz-lhe, confiando no selo divino: «Também eu sou imagem de Deus; ainda não fui, como tu, precipitado do alto da minha glória por causa do meu orgulho! Estou revestido de Cristo; tornei-me outro Cristo pelo meu baptismo; cabe-te a ti adorares-me.» 

Tenho a certeza que ele se irá embora, vencido e humilhado por estas palavras. Vindas de um homem iluminado por Cristo, serão sentidas por ele como se emanadas de Cristo, a luz suprema. Estes são os benefícios que a água do baptismo traz aos que reconhecem a sua força.

S. Gregório de Nazianzo in Sermão XL, 10 

Catecismo Ilustrado - Parte 9 - 5º artigo: E desceu aos infernos

Catecismo Ilustrado - Parte 9

O Símbolo dos Apóstolos

5º artigo: E desceu aos infernos

1. As palavras "e desceu aos infernos" significam que, morto Jesus Cristo, a Sua alma desceu aos infernos, onde se demorou todo o tempo que o Seu corpo permaneceu no sepulcro, e ainda que a mesma pessoa de Jesus Cristo esteve ao mesmo tempo nos infernos e no sepulcro. Não deve isso parecer estranho, pois que, embora a alma de Jesus Cristo se separasse do Seu corpo, todavia a divindade ficou sempre unida à Sua alma e ao Seu corpo.

2. Deve entender-se pela palavra "Inferno" os lugares ocultos, os depósitos em que são retidas, como prisioneiras, as almas que não podem gozar logo da beatitude eterna. Neste sentido a Sagrada Escritura emprega esta palavra em muitas passagens. Foi ainda neste sentido que São Paulo disse que em nome de Jesus Cristo todos os joelhos se dobram no Céu, na terra e nos infernos.

3. Não obstante designados todos pelo nome de infernos, estes lugares não são iguais. Um deles é como que uma prisão escuríssima e horrível, onde as almas dos condenados estão continuamente atormentadas pelos demônios com um fogo que se não pode extinguir. Denomina-se este lugar a Geena, o abismo, ou mais comumente, o Inferno.

4. No segundo destes lugares encontra-se o fogo do Purgatório. As almas que morreram em estado de Graça permanecem aí durante um certo tempo, até se purificarem de todo, e poderem entrar na pátria eterna, onde não pode ter guarida nem haver sombra de pecado.

5. Ao terceiro destes lugares chama-se limbo, e neste eram recebidas, antes da vinda de Jesus Cristo, as almas dos santos, que ficavam aí em descanso, sem nenhum sentimento de dor, na esperança da sua redenção. E foram as almas destes santos que esperavam o seu Salvador no seio de Abraão, que Nosso Senhor libertou quando desceu aos infernos.

6. É um erro supor que Jesus Cristo desceu a estes lugares apenas para fazer brilhar aí o seu poder. Devemos acreditar firmemente que a sua alma desceu com efeito aos infernos e que aí se fez realmente presente, como expressamente o indicam estas palavras de David: "Não deixareis a minha alma nos infernos".
7. Esta descida de Jesus Cristo aos infernos em nada diminuiu o seu poder e majestade, e as trevas destes lugares não ofuscaram no mundo o brilho da sua glória. Pelo contrário, devemos ver neste fato, não só que era rigorosamente verdadeiro tudo o que se dissera da santidade de Jesus Cristo, como também que Este era Filho de Deus, como já o tinha provado pelos seus milagres.

8. Isto se compreenderá facilmente se compararmos as  razões que levaram Jesus a descer aos infernos, com as razões que obrigam os outros homens a encontrar-se ali. Os homens  tinham descido ali como cativos, ao passo que Jesus Cristo desceu como Aquele que, sendo o único livre entre os mortos e o único vitorioso, ia afugentar os demônios que os retinham ali tão severamente encerrados por causa das suas culpas.

9. E desceu não apenas para arrebatar ao demônio os seus próprios despojos, libertando deste cativeiro as almas dos santos Patriarcas e os outros Judeus ali detidos, como ainda para entrar triunfalmente no Céu em sua companhia, o que fez de um modo admirável e glorioso, porque a sua presença derramou uma luz brilhantíssima neste lugar onde estavam os felizes cativos, dilatando-lhes os corações com uma inconcebível alegria e fazendo-os gozar da suprema beatitude, que consiste na união com Deus.

Explicação da  gravura

10. Esta gravura representa a alma de Jesus Cristo aparecendo no limbo. Figuram, em primeiro plano, Adão e Eva de joelhos; seguem-se à esquerda, Abraão brandindo o gládio contra Isaac; Jacob com seu cajado na mão; David com a sua Lyra, etc., à direita, Moisés de cuja fronte irradiam raios de luz; Aarão com a sua vara; São José segurando uma açucena. Nosso Senhor permaneceu na companhia deles até à sua Ressurreição.

11. No plano superior, vê-se o Inferno onde ardem os demônios e os condenados; Jesus Cristo não desceu a este abismo de dores, nem ao Purgatório; fez todavia sentir aos condenados a sua ação, dando-lhes a conhecer a sua divindade, e às almas do Purgatório dando-lhes a esperança da glória

quarta-feira, 19 de julho de 2017

11 pensamentos de S. João da Cruz muito úteis para fazer meditação


1. "O amor consiste em despojar-se e desapegar-se, por Deus, de tudo o que não é Ele."
2. "Para buscar a Deus, requer-se um coração despojado e forte, livre de tudo o que não é puramente Deus."

3. "Que felicidade o homem poder libertar-se da sensualidade! Isto não pode ser bem compreendido, a meu ver, senão por quem o experimentou. Só então verá claramente como era miserável a escravidão em que se estava."
4. "Adquire-se a sabedoria através do amor, do silêncio e da mortificação; grande sabedoria é saber calar e não inserir-se em ditos ou fatos e na vida alheia."
5. "O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em despojar-se e sofrer pelo Amado."

6. "Quem não busca a cruz de Cristo não busca a glória de Cristo."
7. "Quando tiveres algum aborrecimento e desgosto, lembra-te de Cristo crucificado e cala-te."
8. "A alma que busca a Deus e permanece nos seus desejos e comodismo, procura-O de noite, e, portanto, não o encontrará. Mas quem o busca através das obras e exercícios da virtude, deixando de lado os seus gostos e prazeres, certamente o encontrará, pois procura-O de dia."

9. "A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer sente-se impedida em sua liberdade e contemplação."
10. "Por causa de prazeres passageiros, sofrem-se grandes tormentos eternos."
11. "Quem se queixa ou murmura não é cristão perfeito, nem mesmo bom cristão."

terça-feira, 18 de julho de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 08 - 4º artigo: Padeceu, foi crucificado, morto e sepultado



Catecismo Ilustrado - Parte 08

O Símbolo dos Apóstolos

4º artigo: Padeceu, foi crucificado, morto e sepultado

O mistério da Redenção

1. O mistério da Redenção é o mistério do Filho de Deus morto na Cruz para resgatar todos os homens.

2. Estas palavras, "Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos", significam que durante o governo de Pôncio Pilatos na Judeia foi que Jesus Cristo sofreu as maiores dores na sua alma e no seu corpo.

3. Na sua alma Jesus sofreu o desconforto, o pavor, uma tristeza mortal: "A minha alma, dizia, está triste até a morte".

4. No seu corpo Jesus Cristo sofreu  tais tormentos que o profeta Isaías o chamava "Homem de dores", "Homem ferido por Deus", e "despedaçado por causa dos nossos pecados".

5. Não eram necessários tantos sofrimentos para a nossa redenção, pois que teria bastado a Jesus Cristo derramar uma só gota de sangue, pelo seu merecimento infinito, para a obra da redenção.

6. Quis Nosso Senhor sofrer assim para nos mostrar bem o seu amor e para nos inspirar um maior horror pelo pecado que foi a causa da nossa morte.

7. Jesus Cristo sofreu: 1º no jardim das Oliveiras; 2º em casa de Caifás; 3º em casa de Herodes; 4º em casa de Pilatos; 5º no Calvário.

8. No jardim das Oliveiras Jesus Cristo sofreu as dores da agonia, tão grandes que o fizeram suar um suor de sangue. Foi nesse jardim que Judas, um dos seus Apóstolos, o entregou aos seus inimigos, dando-lhe um beijo. (Gravura 18.)

9. Em casa de Caifás, Jesus foi negado três vezes por São Pedro (gravura 29), esbofeteado, coberto de opróbrios, declarado réu de morte por dizer-se Filho de Deus.

10. Em casa de Herodes, Tetrarca da Galileia, vindo a Jerusalém para celebrar a Páscoa, vestiram a Jesus uma túnica branca, por escárnio, tratando-O como a um louco.

11. Em casa de Pilatos, açoitaram Jesus Cristo, coroaram-n'O de espinhos e condenaram-n'O a morrer na Cruz, embora o juiz tivesse reconhecido a sua inocência.

12. No calvário, deram a beber a Jesus Cristo fel e vinagre e crucificaram-n'O entre dois ladrões. Pregado na Cruz, pediu ao seu Pai que perdoasse aos algozes; prometeu o paraíso ao bom ladrão; recomendou a sua Mãe a São João e deu São João por filho à sua Mãe, e depois de ter dito que tudo estava consumado, entregou o espírito nas mãos do Seu Pai.

13. Estas palavras do Símbolo "foi morto" significam que a alma de Jesus Cristo se separou de seu corpo, mas a divindade permaneceu unida à Sua alma e ao Seu corpo.

14. Jesus Cristo morreu na Sexta-Feira Santa, perto das três horas da tarde.

15. Quando Jesus Cristo morreu, o sol eclipsou-se, a terra tremeu, as rochas abriram-se, o véu do templo rasgou-se de alto a baixo, e muitos mortos ressuscitaram, como se vê na gravura, no plano inferior à esquerda.

16. Após a morte de Jesus, um soldado rasgou-lhe o lado com uma lança, saindo da ferida sangue e água.

17. Nosso Senhor permitiu que lhe fizessem esta ferida para mostrar: 1º que nos tinha amado em extremo, vertendo por nós até à última gota do Seu sangue; 2º que o Seu coração permaneceria sempre aberto para derramar sobre nós a abundância de Suas graças.

18. As palavras do Símbolo "e sepultado" significam que depois de morto, o corpo de Jesus Cristo foi despregado da Cruz e metido no túmulo.

19. Depois de sepultado Jesus, taparam a entrada do sepulcro com uma grande pedra, que Pilatos mandou selar, encarregando soldados de guardarem o túmulo.
20. Os judeus tomaram estas precauções para impedir que fosse roubado o corpo de Jesus, e Deus permitiu-as para tornar mais manifesta a sua Ressurreição.

Via sacra

21. A Igreja recomenda aos fiéis o piedoso exercício chamado "Via sacra", que lhes recorda em 14 estações a Paixão do Salvador. Concede numerosas indulgências a quem rezar a Via sacra com sincera devoção e contrição.

Explicação da gravura


22. A gravura representa a condenação de Jesus por Pilatos, Jesus açoitado, Jesus pregado na Cruz e colocado entre dois ladrões, e a sepultura de Jesus.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO - NA FORMAÇÃO DAS CRIANÇAS



 "Para ser santa é necessário sofrer muito, ambicionar o que há de mais perfeito e esquecer-se de si mesmo."




O ESPÍRITO DE SACRIFÍCIO


"Não há nada maior no universo do que Jesus Cristo; não há nada mais sublime em Jesus Cristo que o Seu sacrifício".
(Rene Banzin, A doce França, p. 86)

Que veremos neste capítulo?

1º- A natureza do espírito de sacrifício;
2º- A sua importância;
3º- Os meios a empregar para incutir nas crianças.

1º- A natureza do espírito de sacrifício

O que é o espírito de sacrifício?
O espírito de sacrifício é uma virtude que consiste em saber sofrer por uma intenção que eleva.

Quais são as formas principais do espírito de sacrifício?

1º- A resignação cristã em face dos males que é preciso sofrer.

Em todo o dia há que sofrer; o calor, o frio, uma dor de cabeça, uma contrariedade, uma repreensão, uma afronta, etc.

2º- Uma prática espontânea de certas mortificações, que alentam e desenvolvem a virtude.
Uma criança que se haja habituada a aceitar os pequenos sofrimentos da vida, sem se queixar e a oferecê-los a Deus; que se tenha acostumado a ajudar o seu esforço pessoal e livre aquilo que as circunstâncias lhe impõe, essa criança terá o espírito de sacrifício.

2º- A importância do espírito de sacrifício

"Tudo esmorece, tudo se estiloa, tudo morre na criança a quem nada se recusa".
(Mons. Gibier, A desorganização da família, p. 315)

Qual é a importância do espírito de sacrifício?
É imensa. Por que se pode dizer que a felicidade, a virtude, a santidade e a salvação dependem dele.

Como pode o espírito de sacrifício dar a felicidade?

1º- Disciplinando os nossos desejos.

A felicidade, com efeito, não consiste na fruição desta ou daquela soma de vantagens materiais ou morais. É o resultado do equilíbrio entre aquilo que se deseja e o que se tem.

Ora o coração humano, entregue a si próprio, é insaciável: as satisfações que lhe são concedidas não fazem senão aumentar os seus desejos. Somente a disciplina interior, quer dizer o espírito de sacrifício, pode reduzir a ansiedade de gozar a proporções razoáveis, em harmonia com aquilo que possui.

Parece-nos sobremaneira admirável a reflexão daquele campónio que passeava na rua mais comercial duma grande cidade, à hora em que, ao cair da noite, as ondas de luzes, nas montras dos armázens, faziam rebrilhar os objetos mais variados, próprios para excitar a cobiça dos trausentes:

- Que coisa de que eu não tenho necessidade, dizia ele.

E era feliz. Devia ser um homem capaz de se sacrificar.

2º- Produzindo esse delicado prazer que a generosidade dá sempre aos corações bem nascidos. Quando se fazem generosamente os sacrifícios que as ocasiões  oferecem, encontra-se nisso uma tal felicidade que se tem pena quando esses sacrifícios já não são necessários. Neste mundo, quanto mais sacrifícios se fazem, mais felizes nos sentimos.

3º - Suprimindo o egoísmo e o mau caráter, que são as causas ordinárias duma multidão de dificuldades exteriores, que perturbam a tranquilidade e a felicidade.

É verdade que a virtude depende do espírito de sacrifício?

Não há dependência mais direta, nem mais completa do que aquela: aos dois termos corresponde mais ou menos a mesma definição; são praticamente inseparáveis; e será sempre verdadeiro o dizer-se que quem se não sabe sacrificar é incapaz de adquirir alguma virtude.

Como depende a santidade do espírito de sacrifício?
Não sendo a santidade mais que a virtude levada a um grau heróico, depende, como a própria virtude, do espírito de sacrifício.

Como depende a salvação do espírito de sacrifício?
Se não fizerdes penitência, não vos salvareis, diz Nosso Senhor. E que penitência farão aqueles que não sabem reprimir-se, mortificar-se, sacrificar-se?

Não farão nenhuma, e perder-se-ão.

Que conclusões derivam destas considerações sobre a importância do espírito de sacrifício?
Quem quiser assegurar a felicidade, a virtude e a salvação das crianças que tem a seu cargo, deve necessariamente habituá-las ao sacrifício. Seria um "desejo egoísta" querer desviar delas todo o sofrimento, toda a pena, toda a fadiga, toda a privação.

3- Os meios a empregar para incutir o espírito de sacrifício nas crianças

Que meios se devem empregar para incutir o espírito de sacrifício nas crianças?
É preciso:

1º- Não as enervar;
2º- É preciso por meio dum regime austero habituar as crianças a serem valorosas;
3º- Exercitá-las no sofrimento;
4º- Fazê-las praticar atos;
5º- Fazê-las agir sobrenaturalmente.

1º- Não se devem enervar as crianças

"Pais que favoreceis a moleza do corpo, a moleza da vontade, corrompeis as gerações em flor".
(Mons. Gibier, A desorganização da família, p. 315)

Com que devem ter cuidado os pais que não querem enervar as crianças?

Devem ter cuidado com o ardor e a frequência das suas carícias e dos seus abraços; reprimir algumas dessas demonstrações; tornar outras menos expansivas; compenetrar-se bem de que os seus filhos nada perderam com este regime, e que eles próprios serão com isso beneficiados.

Com efeito, as manifestações exageradas de ternuras esgotam o coração dos pais, e não dão às crianças senão moleza; ora, a moleza torna sensível a menor impressão.

2º- É preciso por meio dum regime austero habituar as crianças a serem valorosas

"Não basta fortalecer a alma da criança; é preciso enrijar-se-lhe os músculos".
(Montaigne, Ensaios)

Quer isto dizer que se devem submeter ao regime espartano?

Não dissemos nem pensamos nada semelhante. O regime espartano, com efeito, consistia em educar a criança, privando-a de todo o conforto.

"Adestravam-nas a suportar, sem se queixar, o frio e o calor, a fome e a sede, a fadiga e a dor. Usavam o mesmo fato em todas as estações. Dormiam sobre caniços, que eles mesmos cortavam no Eurotas. Alimentavam-nas mal, e obrigavam-nas a roubar para matar a fome. Havia concursos de resistência às pancadas. Todos os anos se chicoteavam diante do altar de Artemis, e o vencedor era o último a queixar-se. Houve crianças que morreram sem soltar um gemido...".
(Albert Malet, A antiguidade, p. 175)

Que é pois, o austero regime educativo da coragem?

Sem ir até ao excesso do regime espartano, nem mesmo caminhar resolutamente pelo caminho que conduz à Lacedemônia, parece vantajoso submeter as crianças a uma certa austeridade de regime.

Mestres experimentados recomendam este método - chamam-lhe "regime educativo da coragem": Consiste em inspirar a energia contra a dor; a privação voluntária duma injúria; a aceitação resoluta duma punição merecida; a sinceridade na confissão duma falta.

O emprego deste meio não apresenta algum perigo?
Sim.

É que o "austero regime educativo da coragem" degenera em estoicismo ou em rigidez orgulhosa. Evita-se esse perigo purificando e espiritualizando as intenções da criança.

3º - É preciso habituar as crianças ao sofrimento.

Qual é o primeiro meio a empregar para ensinar às crianças a suportarem as dificuldades?
É de não prestar àquilo que as contraria senão uma atenção relativa.

"Não lhes mostreis jamais um interesse muito grande quando as encontrardes com um parecer um pouco demudado; faz-se-lhes um mal que nem imagina com estas perguntas: 'Como estás?', olhando-a fixamente. É o meio de as predispor para as doenças e, sobretudo, para os abalos nervosos, torná-las preocupadas com a sua saúde. Temei menos os pequenos acidentes do que as emoções morais; ensinai as crianças a ser ágeis à custa mesmo de algumas contusões na cabeça".
(D.Donné, citado por Depoisier, Da educação, p. 303-304)

Qual é o segundo meio a empregar para ensinar às crianças a suportarem as dificuldades?
É o de só lhes prestar atenção proporcional às contrariedades que sofrem...

4º- É preciso obrigar as crianças a fazerem sacrifícios

"Um cristão não sucumbe, sacrifica-se"

Como podem os pais obrigar os filhos a fazerem sacrifícios?

De quatro maneiras:

1) Proporcionando-lhes a ocasião;
2) Ajudando-os a aproveitar as ocasiões;
3) Levando-os a provocarem as ocasiões;
4) Obrigando-os a prestarem contas, todas as noites, do que fizeram durante o dia.

Quais são as ocasiões de sacrifícios que os pais podem proporcionar aos seus filhos?

"Podem, por exemplo, não lhes conceder tudo quanto desejam; não lhes dar imediatamente o que eles pedem com instância; habituá-los, por meio de conselhos, exercícios e lições de coisas, a serem contrariados sem se irritarem, e esperar sem se impacientarem, a sofrer provações sem chorarem, a sentir a falta de qualquer coisa sem julgarem tudo perdido".
(Das palhetas de ouro, 1º- série, p. 113 e 133)

Como podem os pais ajudar as crianças a aproveitarem as ocasiões de se sacrificar?

1º- Avivando-lhe frequentemente o pensamento de fazerem um esforço;
2º- Indicando-lhes uma ou outra ocasião que se apresentar: obediência, privação, esmola, bom porte, amabilidade, etc.

Alguns exemplos:

1º- Ocupar um lugar menos cômodo, dizendo com um sorriso: "Como estou bem aqui!"

2º- Apresentar-se para um trabalho obrigatório com toda a naturalidade e com os modos alegres, próprio de quem nisso sente um grande prazer.

3º- Privar-se dum objeto de pequeno valor, dando-o sem afetação a quem, ao vê-lo, manifestou o desejo de possuir um igual.

4º- Colocar no seu lugar os objetos que estão fora dele, sem que se saiba que os arrumou.

5º- Remediar os esquecimentos.

6º- Proporcionar pequenas alegrias, sem que aquele que as desfruta tenha manifestado a ninguém a felicidade que lhes deviam dar.

Esta procura dos sacrifícios não ultrapassa a capacidade moral das crianças?
Não, certamente.

As crianças são em geral, muito generosas; por pouco que se incitem, lançam-se no caminho do sacrifício com uma facilidade prodigiosa; põem nisso a mesma impetuosidade que outros imprimem à aquisição dos seus prazeres.

É importante finalizar o que fazem as crianças?

Sim; é muito importante, apesar de geralmente esquecido.

A criança, com efeito, é um aprendiz; precisa dum mestre; a sua vontade é inconstante: carece dum apoio; a sua consciência não lhe basta: têm necessidade dum socorro exterior. E, no entanto, esta fiscalização não se exerce senão raramente.

Temos pedido muitas vezes às crianças da catequese que arranjem uns cadernos de lembranças em que registrem os seus sacrifícios; de quando em quando, nós examinamo-los. Mas o que mais nos admira é a indiferença dos pais. Eles deveriam ser os primeiros a querer e a empregar este meio de educação... e vemos que se desinteressam! Ah! os pais desinteressam-se frequentemente de muitas coisas!

Uma jovem, à qual nos esforçamos um dia por fazer compreender a importância dum regulamento cheio de senso, respondeu-nos:

- Mas que quer? Ninguém me fala nisso a são ser o senhor. Ninguém mais me incita a cumprir esses regulamento!

5º- É preciso fazer agir as crianças sobrenaturalmente

Que comporta esta recomendação?
Comporta uma dupla operação:

A primeira consiste em fazer oferecer a Deus os pequenos sacrifícios do dia.
A segunda consiste  em oferecer uma intenção sobrenatural ou elevada à generosa atividade das crianças.

É importante  fazer oferecer a Deus os pequenos sacrifícios de cada dia?
Sim.

E por muitas razões:

1º- É, primeiramente, o único meio de não perder o merecimento.

2º- E, além disso, este pensamento de Deus, por cuja intenção se procede, é um recurso sem igual, para sustentar a vontade da criança.

- Oferece a tua dor de cabeça a Deus, dizia uma mãe a um seu filhinho de poucos anos.
- E se eu a oferecer a Deus, Ele querê-la-á?

Esta ingenuidade, que parece desconcertante, fornece uma ocasião para uma explicação edificante e educativa; todas as mães, verdadeiramente mães, a aproveitarão com solicitude.

Que intenções se podem sugerir à criança para animar a sua generosidade ao sacrifício?

A conversão dum pecador conhecido; uma graça particular cujo valor a criança possa conhecer; a imitação do Menino Jesus e dos santos, etc.

Qual será a eficácia deste meio seriamente utilizado?

Será maravilhoso.

"A alma das criancinhas é cândida e pura, e Deus compraz-Se com esta inocente simplicidade. Ele o declara no Seu Evangelho. Quantas graças, pois, estes pequeninos seres poderiam obter do Céu por suas mortificações, para a conservação dos bons e a conversão dos maus! Quando o santo cura de Ars queria obter de Deus uma grande graça, a conversão dum pecador em particular, reunia as criancinhas, conduzia-as diante do tabernáculo e fazia-as orar com os braços em cruz. São Filipe de Nery usava do mesmo meio".

(Simon, A arte de educar as crianças. p. 119)

Todos os missionários o empregam.
Os pais e as mães deveriam inspirar-se neste pensamento sobrenatural e eficaz.

(Catecismo da Educação, pelo abade Rene de Bethléem)


Fonte:

domingo, 16 de julho de 2017

PROCURAR DEUS COM RETA INTENÇÃO, DIANTE DA INSTABILIDADE DO CORAÇÃO


(Outra valiosa exortação à vida interior de Tomás de Kempis, com a reflexão e oração de São Francisco de Sales) 

         JESUS: Filho, não te fies nos teus afetos pessoais, que depressa em outros se mudarão, enquanto viveres, estarás, sujeito ao varável, ainda que não queiras, ora te acharás alegre, ora triste, ora sossegado, ora perturbado, umas vezes fervoroso, outras tíbio, já diligente, já preguiçoso, agora sério, logo leviano. O sábio, porém, e instruído na vida espiritual, está acima desta inconstância, não cuidando do seus sentimentos, nem de que parte sopra o vento da instabilidade, mas concentrando todo esforço de sua alma no devido e almejado fim. Porque assim poderá permanecer sempre o mesmo inabalável, dirigindo a mim, sem cessar, a mira de sua intenção, entre todas as vicissitudes que lhe sobrevierem.

        Quanto mais pura for tua intenção, porém, tanto mais constante serás durante as diversas tempestades. Mas em muitos se escurece o olhar da pura intenção, porque depressa o volvem para qualquer objeto deleitável que se lhes depare. Poucos há inteiramente livres da pecha do egoísmo. Assim, o judeus foram um dia a Betânia, em casa de Maria e Marta, não só por amor de Jesus, mas também para verem Lázaro (Jo 12,9). Cumpre, pois, purificar a intenção, para que seja simples e reta e se dirija a mim acima de tudo que há de permeio.

                                                  REFLEXÃO
         Deus continua o ser supremo desse grande mundo em perpétua mudança, pela qual o dia se transforma sempre em noite, a primavera em verão, o verão em outono, outono em inverno e o inverno em primavera. E um dos dias jamais se assemelha perfeitamente ao outro: há dias nebulosos, chuvosos, secos, ventosos, variedade que dá uma grande beleza a este universo. Acontece o mesmo com o ser humano que é, segundo a opinião dos antigos, um resumo do mundo. Porque jamais ele está no mesmo estado (Jó 14,2), e sua vida escoa nesta terra como as águas, flutuando e ondulando numa perpétua diversidade de movimentos que ora o elevam às esperanças, ora o abaixam pelo medo, ora o inclinam à direita pela consolação, ora à esquerda pela aflição; e jamais um só de seus dias se assemelha ao outro, nem mesmo uma de suas horas se parece inteiramente com a outra.

         Daí  esta grave advertência: devemos esforçar-nos para manter uma contínua e inviolável igualdade de coração numa tão grande desigualdade de acidentes; e embora todas as coisas mudem e variem diversamente à nossa volta, devemos permanecer constantemente imóveis para sempre ter em vista tender e pretender ao nosso Deus (Introduction à la vien dévote, parte IV, Cap. XIII, I, 253).
          
                                                  ✞ ORAÇÃO ✞

         Ó dulcíssima vontade de meu Deus, que sejais feita para sempre! Ó desígnios eternos da vontade de meu Deus, eu vos adoro, consagro e dedico minha vontade para querer para sempre, eternamente, o que eternamente quisestes! Que eu faça, portanto, hoje e sempre, e em todas as coisas, vossa divina vontade, ó meu amável Criador! Sim, Pai Celeste, porque foi este o vosso prazer em toda eternidade. Assim seja (Opusc. III, 151).
          

(Fonte: livro “Imitação de Cristo com Reflexões e Orações de São Francisco de Sales”, Editora Vozes, 2ª edição, excertos do Livro II, Cap. 33, p. 199 e 201 – O título é nosso)

sábado, 15 de julho de 2017

Mortificação: caminho para a virtude


Ora escrevi eu, agora, uma palavra, que, com as suas cinco sílabas, põe medo no coração de muita gente. Quando todos fogem de mortificar-se, venho eu, aconselhá-la como um dos melhores elementos para a perfeição moral, como um dos melhores instrumentos para a felicidade humana. E de facto, sem a mortificação não quero dizer que a felicidade eterna seria impossível de alcançar, mas a felicidade temporal de modo algum se poderia conseguir. A mortificação voluntária é indispensável, tanto para uma como para a outra. Como poderia apreciar-se a luz, se não houvesse trevas? Como se sentiria alegria se nunca houvesse dores? E porque não privarmo-nos de uma para melhor a apreciarmos depois; e como não procurarmos a outra, para melhor saborearmos a sua oposta?

Mas o que é a mortificação? Esta palavra, no seu sentido etimológico, significa “fazer morrer”. Não pensem, porém, que mortificar-se, seja matar-se, inutilizar-se, enforcar-se, ou destruir a nossa natureza… Não. Pelo contrário, a lei cristã ordena, que não nos matemos, nem total, nem parcialmente. Isso é um gravíssimo pecado, que até priva, os que o cometem, da sepultura em lugar sagrado e das orações da Igreja. Não, não se trata de um suicídio. A mortificação não é para matar; é para aperfeiçoar a natureza. E na verdade a mortificação guarda-a, purifica-a, melhora-a, robustece-a e torna-a resoluta e constante para o bem. Porque vós muito bem sabeis que a nossa natureza é uma natureza caída. Foi por Deus criada, em Adão e Eva, num estado de perfeição do qual o pecado a fez cair.

Em vez daquela santa inclinação para o bem, que os nossos pais tiveram nos primeiros dias do Paraíso – e que sem dúvida deles teríamos recebido, se não fora a desgraça da sua desobediência, - temos agora dentro em nós esta rebelião, esta fraqueza, estas grandessíssimas imperfeições, que tantas desgraças nos acarretam. Basta olharmos dois instantes para dentro de nós mesmos, para conhecer a verdade de tudo isto. Porque pessoa alguma há, que não sinta dentro de si uma contradição enorme, um obstáculo perpétuo, uma preguiça continua para o bem, e uma tentação contínua para o mal. Não é isto verdade? O grande apóstolo S. Paulo deixou escritas estas palavras, que cada qual a si mesmo pode, com igual verdade, aplicar: - “Não faço o bem que quero, faço o mal que não quero. Sinto em meus membros uma lei que repugna à lei da minha razão, que me arrasta, cativo, para o pecado.” Pois bem, o que a mortificação destrói, não é a vida, não é a natureza, é esse grande defeito da vida e da natureza, que a encaminha para o mal. A natureza humana, como dizia Tertuliano, é naturalmente boa, e ainda dizia mais – é naturalmente cristã.Quer dizer, tão boa, que quando não cede às tentações, por si mesma facilmente se acomoda à moral cristã. São os defeitos, as paixões, as inclinações más, que a levam ao pecado, ao crime, à imperfeição.

Mortificação, é, pois – o exercício salutar de enfraquecer, contradizer, vexar e matar, até completamente destruir, todas essas más inclinações, que a toda a hora promovem a nossa perda. Bem sabeis que todos temos, dentro de nós, uns inimigos terríveis, que se chamam, a soberba, a ira, a inveja, a avareza, a gula, a luxúria e a preguiça… Pois vencer essas paixões que enchem de obstáculos o vosso caminho em direcção ao bem, eis o que se chama mortificação. Quem não mortifica estas paixões, e se deixa ir ao sabor dos seus impulsos, a razão fica obscurecida de tal sorte, que facilmente descamba para a classe inferior, nivelando-se com os próprios irracionais. Tal qual como eles, o homem, a mulher que não se mortifica, come, goza, procura os bens desta vida, sem para coisa alguma se importar com o seu dever. O que mais e melhor afaga os seus sentidos, eis o que o preocupa a todo o momento.

Quem é que faz caso de uma pessoa, que não se reprime, que não se vence, que não se mortifica? Essa pessoa é incapaz de cumprir os seus deveres, de viver a vida que a moral cristã impõe. Não é nada, não vale nada. Quem não se mortifica, se é mau em si, na sociedade é detestável, é insuportável. Pois o que requer a vida social, se não o sacrifício mútuo de quantos nela vivem, obrigando todos e cada um, a ceder um tudo-nadinha, dos seus direitos, e dos seus gostos, embora lícitos, em favor de todos os mais? As leis da urbanidade, da cortesia, da delicadeza, que vigoram na sociedade, outra coisa não são, senão leis de mortificação. Não as comparo, Deus me livre de as comparar. A urbanidade mundana não é igual à mortificação cristã. E sabem porquê? Porque a mortificação é por virtude, e a urbanidade é por conveniência. A urbanidade é filha do desejo da própria comodidade, do bem parecer, do viver agradavelmente. A mortificação é constante: a urbanidade dura enquanto dura a sociedade e a conveniência. A mortificação cura ou refreia a desordenada concupiscência. A urbanidade esconde-a, disfarça-a, ensina-a a fingir. Finalmente, a mortificação é virtude e a urbanidade é hipocrisia.

Não há mortificação sem virtude. Sim, quem pratica a mortificação cristã, facilmente adquire qualquer virtude. O que nos afasta da virtude é o que nela nos custa. Não há ninguém que não deseje ser virtuoso. Todos nós desejamos ser humildes, fortes, honestos, justos, praticar a caridade, constância, desprezo do mundo… E porque somos tudo isto? Porque custa, porque é preciso a gente mortificar-se. Mais nada. É o único obstáculo, se nos mortificar-nos, desaparece o obstáculo, e eis-nos no caminho da virtude, a virtude é como a relva, que cresce e atapeta a terra, onde não encontra obstáculos. Assim cresce e adorna a nossa alma, a virtude quando os obstáculos desaparecem. A virtude é a esposa querida do espírito humano, que não o deixa, enquanto ele não a expulsa de si, e que quanto mais lhe abre o coração, tanto mais nele se enraíza. A virtude brota espontaneamente no coração da pessoa que se mortifica.

Virtude sem mortificação também é coisa que não há. O homem não nasce virtuoso. Numerosos defeitos e suas inclinações, nascem com ele, e com ele se desenvolvem pelos tempos adiante. Só vencendo-as, esmagando-as, matando-as, é que pode chegar à virtude. A mortificação é o caminho da perfeição.

Duas espécies de mortificação há: uma externa, outra interna. A externa consiste na mortificação dos sentidos e das faculdades corporais. Tirar aos sentidos todo o afago sensual que não tenha razão de ser e habituá-lo a sofrer as asperezas e fadigas, - é mortificação. Nós devemos ter só temperança e moderação, mas verdadeira mortificação na demasiada curiosidade do nosso olhar, no prazer da música, no comer e beber… É preciso que a nossa natureza saiba sofrer. A mortificação interna, consiste na mortificação das potências da alma. Mortifica o seu entendimento, quem com intensidade o aplica ao conhecimento da verdade, e principalmente da verdade útil e proveitosa para a vida eterna; - quem o afasta da falsa doutrina e da curiosidade, que leva a gente direitinha para o erro e para a heresia; - quem o educa de forma a aprender primeiro o mais necessário, em seguida o útil, depois o agradável, mas nunca o ilícito. Bom é saber muito. Mau é saber demasiado. Bom é adquirir conhecimentos, mau é adquirir conhecimentos falsos. Mortifica a vontade, acostumando-a a querer, não o que é agradável, mas o que é bom; a aborrecer, não o que a desgosta, mas o que é mau. A mais necessária de todas é a mortificação da vontade. Por ela seremos bons ou maus. Ela nos perde e ela nos salva.

Mortifiquemos, pois, sobretudo, as nossas sete paixões: a soberba, a avareza, a luxúria, a ira, a gula, a inveja e a preguiça, e principalmente, aquela que dentre todas elas em nós sobressaia; Mortifiquemo-las, para que todas obedeçam à razão, e a razão a Deus, e assim irmos andando no caminho da perfeição espiritual, e podermos alcançar a felicidade do Céu.

Adaptado de: Padre José Lourenço de Mattos in "O Paraíso do Cristão", 1914

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Catecismo Ilustrado - Parte 07 - 3º artigo (continuação): Nasceu da Maria Virgem


Catecismo Ilustrado - Parte 07

O Símbolo dos Apóstolos

3º artigo (continuação): Nasceu da Maria Virgem

Explicação da gravura

1. Ao centro, o Menino Jesus nasce no estábulo de Belém, cercado dos cuidados de Maria, sua Mãe, e de São José, seu pai adotivo. Perto da manjedoura onde o Menino repousa, um boi e um jumento, animais que, segundo a Tradição, lá se encontravam.

2. Os pastores vêm adorá-l'O e no Céu os anjos entoam o alegre cântico: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade" .

Nascimento de Jesus Cristo

3. "Naqueles dias, saiu um édito de César Augusto, prescrevendo o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito por Quirino,  governador da Síria. Iam todos recensear-se, cada um à sua cidade. José foi também da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, que se chamava Belém, porque era da casa e família de David, para se recensear juntamente com Maria, sua esposa, que estava grávida. Ora, estando ali, aconteceu completarem-se os dias em que ela devia dar à luz, e deu à luz o seu Filho primogênito, e O enfaixou e O reclinou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria."(Lucas II, 1-7)

Vida oculta de Jesus

4. Guiados por uma estrela milagrosa, os Magos, em número de três, vieram adorar o Menino Jesus, e ofereceram-lhe ouro c omo a um rei, incenso como a um Deus e mirra como a um homem mortal, visto que a mirra era empregada para embalsamar os mortos.

5. Nosso Senhor foi apresentado no templo quarenta dias depois do seu nascimento, no segundo dia de fevereiro. A Santíssima Virgem cumpriu nesse dia a cerimônia da purificação, prescrita pela lei de Moisés.

6. Depois da apresentação no templo, os pais de Jesus levaram-no para o Egito, a fim de escapar à perseguição de Herodes, que o queria mandar matar.

7.Para conseguir o seu fim, Herodes mandou degolar todas as crianças até a idade de dois anos em Belém e seus arredores. Estas crianças são os chamados Santos Inocentes.

8. Morto Herodes, o Menino Jesus voltou para Nazaré, na Galileia, onde permaneceu até à idade de trinta anos.

9. A vida de Jesus em Nazaré foi uma vida ignorada, pobre e de trabalho.

10. Ensina-nos o Evangelho que durante este tempo Jesus Cristo frequentava o templo nos dias de festa, era obediente a seus pais, e à medida que ia crescendo em idade, mais dava provas de sabedoria e santidade.

Vida pública de Jesus

11. Com a idade de trinta anos, Jesus Cristo recebeu o Batismo das mãos de São João Baptista, nas águas do Jordão. (Mat. IV, 13-17)

12. E retirou-se em seguida para o deserto onde jejuou durante quarenta dias (gravura 51) permitindo ao demônio que O tentasse, para nos ensinar como devemos resistir às tentações. (Gravura 53). (Mat. IV, 1-11)

13. Saindo do deserto, Jesus Cristo escolheu os Seus doze Apóstolos, e começou a pregar o Evangelho na Judeia.

14. Nosso Senhor tomou para Seus Apóstolos uns pobres pescadores que não tinham nenhuma instrução e viviam do seu trabalho.

15. São os seus nomes: Simão chamado Pedro, e André seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu, Tomé, Mateus o publicano, Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu, Simão Cananeu e Judas Iscariotes, o traidor.

16. A palavra "Evangelho" quer dizer boa nova. A boa nova, que Jesus Cristo anunciava, era ser Ele Filho de Deus, o Messias ou Salvador prometido desde o princípio do mundo.
17. Jesus Cristo reforçava a sua doutrina com a prática de numerosos milagres. Fez o primeiro a pedido da sua Santíssima Mãe, mudando a água em vinho nas bodas de Caná, na Galileia. (Jo. II, 1-11)

18. Para testemunhar o seu amor às crianças, Jesus acariciava-as com as mãos, abraçava-as e abençoava-as dizendo: "Deixai vir a mim as crianças, porque dos que são como elas é o Reino de Deus". (Marcos X, 13-17)

19. Falando aos infelizes, Jesus dizia: "Vinde a mim, todos os que estais fatigados, e eu vos aliviarei". (Mat. XI, 28)


20. Jesus recebia os pecadores com bondade, e dizia: "Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores à penitência". (Lucas V, 31)